Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acredito na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.

Nelson Magalhães Filho

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Série MULHERES. Mista s/papel, 100X80 cm


antes o olor das avencas
e o perfume obsceno entre tuas coxas bonitas
mordo teus lábios carnudos embebidos de vinho,
e atordoado pelos beijos,
zonzo, chupo tua língua, teus tênues olhos em vão
cheios de lágrimas-azeites.
tarde triste prá porra. começa a
chover agora quando fico atordoado,
quando criança gostava de escalpelar
iguanas do mar (sutileza assustadora)
quando criança andava de bicicleta
pela rua das capilárias
e coisas admiráveis acontecem
quando passo por um estorvo de mar:
aí eu pressagio o pernicioso
sonho que rasga tua boca:
durante todo o inverno passeávamos
pelas ruas vadias provocando tormentas
no aroma concebido das avencas...

.
.
.


falarei da ferocidade dos desejos violentos das últimas horas, desmaiadas que traziam fragâncias estranjas do mar da pituba, lembranças de teus olhos despovoados verdes mentiras de teus lábios embebidos de sutil encanto. não há nuvens no céu apenas a lua pálida cheia de silêncios, mastiga a lua pessoas insanas uivando para nada, pois desperdiçei flores demais em seus lábios de mentiras. a música de nick cave tocando no micro system o quarto com cortina de lagartos rasgam o tempo das irascíveis cobiças. a chuva brandamente voltava e fico estonteado de chuva que range na vidraça vermelha amor à primeira tempestade incide sobre minha pele queimada de sol respinga desprezo pela comoção destes amores subterrâneos.


Nelson Magalhães Filho

3 comentários:

Luciano Fraga disse...

O velho cachorro uivou furioso na noite de ventania.O que é isso bacana? Tive que sair da sala, dar umas voltas para retomar o fôlego.Isto sim é poesia.

On The Rocks disse...

onde estar esta pintura?

CACHORRO VADIO MORTO EM NOITE CHUVOSA disse...

A pintura tá em casa.