cavalos discorrem pela afável noite
até ficar insuportável beijá-los
- com a língua beijar cavalos -
o tempo não passa nunca
o tempo chora sangue de anjo sangue de cavalo.
ainda não sei o que tem dentro de mim
que não passa nunca e chora
sangue de cavalo sangue de anjo.
eu cambaleava pela afável noite de ontem
com a sede insuportável do beijo
vadiando pelos becos escuros da gamboa
vadiando pelas ruas estreitas
esculpidas de perturbados da gamboa.
aí eu começei o canto esganiçado
para você me ver assim: uma
muralha de dor,
uma carne tecida de flores
que vão ficando álgidas de aves marinhas.
meu amor que não conheço apenas me pasta
neste tempo perdido no mar negro
abortando cavalos e cadelas e rezando pro anjo.
vivo pastando no mar negro como peixe boi
estrela do mar negro percorro temporais selvagens
e cada vez que me perco pela afável noite de ontem
o oco de mim vai vomitando
um sentimento nostálgico de perdas
espelhos de mortos com seus ossos de medo.
Nelson Magalhães Filho
O INSUPORTÁVEL FULGOR DA INSÔNIA
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O INSUPORTÁVEL FULGOR DA INSÔNIA, 2024 Acompanha um homem grisalho
repousando num inabitado visguento, querendo acender um outro EU através do
desatino...
Há 3 meses
5 comentários:
Buenas, segundo A. Antunes, cachorros são lobos mansos e cavalos são camelos com sede, assim como o escuro é a metade da zebra. Mas deste poema sei que é difuder, um afogamento, abraço.
Gosto do teu estilo anti-lírico. Já vim aqui várias vezes ler teus poemas e ver os vídeos e imagens desde que o Ruela publicou um deles na Nova Águia, além do Klatuu te elogiar muito.
Beijos.
Tá Demais Nelson!
Bem-vindo!
O BAR DO OSSIAN agradece o apoio.
Abraço lusitano!
Valeu pessoal, obrigado pelas visitas.
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