Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acredito na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.

Nelson Magalhães Filho

domingo, 21 de dezembro de 2008

Eu e meu amigo Devarnier Hembadoom grafitamos o banheiro masculino da escola de belas artes













banheiro masculino da escola de belas artes



quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

CORAÇÃO DESERTO



Companhia dos Anjos Baldios apresenta
Carlos Osvaldo Ferreira ( o Badinho) em
CORAÇÃO DESERTO
Um vídeo de Luciano Fraga e Nelson Magalhães Filho
Um homem em crise passa uma noite embaixo de uma ponte esperando um trem para seus sonhos.
Baseado no poema de Luciano Fraga
Música original e interpretação: Marcão
Duração: 4:55 min
Cruz das Almas, Ba. - 2006
Direção e imagens: Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Capa e ilustrações: RUELA

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

velvet underground - venus in furs

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008


lua negra diabólica da minha janela
roça tua pele insólita
de areia lambuzada tão soturna
com os morcegos
alheando-se de meu quarto
as feridas já são dentes crivados no corpo
vejo gente navegando na cinzeza
das ruas- gengivas rasgando a língua
língua colada boca-a-boca
as pessoas tão ocultas
em meu corpo lodoso das esperas roídas
lua negra diabólica da minha janela
roça tua pele insólita
não quero morder tua
boca queimando as neblinas
da vaguidão.
Nelson Magalhães filho
Marina tinha vinte anos...

Marina tinha vinte anos
e estava apaixonada
Seu passatempo predileto
era despir-se em frente
ao espelho
do seu quarto
Principalmente às sextas-feiras
quando seu amor
chegava de viagem
e ia visitá-la
Sedento
ele não demorava
a buliná-la
Pingos de chuva
batiam forte em sua janela
de vidro
Usando um vestido longo
e sem calcinhas
Ela encachava-se
de frente
sobre seu colo
Seus pelos pubianos
roçavam
suas coxas
"Chupa vai!", ela disse
Sua buceta com corte
à la Charles Chaplin
era como ele gostava...
Marina gemia
aos seus toques
frenéticos
Não demorou a penetrá-la
"Mete, mete..."
Ela era insaciável
"Você gosta da minha bucetinha, hein?"
"Adoro!"
"É sua"
"Sei..."
O telefone toca
ele atende
era sua ex-mulher
gritando, disse:
"Você já pagou a escola dos meninos?
a irmã tá me cobrando direto!"
Desligou
"Caralho!"
Não acreditava no que acontecia...
"O que foi meu amor?"
"Nada, nada..."
Leonard Cohen cantava
baixinho:
"i'm your man..."
A essa altura
incomodava-se
com o vinho
derramado aos seus pés.

Postado por Tarcísio Buenas

http://lavergadelbuenas.blogspot.com/
Bob Dylan, Love Minus Zero/No Limit

sábado, 6 de dezembro de 2008

CACHORRO RABUGENTO MORTO EM NOITE CHUVOSA


Um vídeo-poema de Nelson Magalhães Filho
Com
Priscila Pimentel
Direção de arte, fotografia de cena, maquiagem e figurino: Karla Rúbia
Música: Banda Inominável
Poema, imagens, edição e direção de Nelson Magalhães Filho
Duração: 5 min
Salvador -Ba- 2008

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

SAMANTHA ABREU:Nenhum Sobrevivente é Nada

Leitura de Samantha Abreu / texto de Paulo Castro
VEJA MAIS:
http://samanthaabreu.blogspot.com/

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Nelson Magalhães Filho. ANJOS BALDIOS, 2004, mista s/papel craft, 100X80 cm

AVÔ
Numa noite, assoviada poeira de estrelas
meu coração vazio insistia na rua.
Vovô naquela vez não escrevia poemas
mas vadiava todo prateado pelos becos
e arrancava luzes com as unhas inquietas
das verdes paredes descascadas pela lua
(a noite inteira chamando chamando).
Às vezes nos entreolhávamos numa esquina,
eu era príncipe-felino
ele tinha asas
que rasgavam o paletó mais negro
que a flor da morte.
Sacudia os ombros meio esquisito,
ainda não dorme, dizia-me
deixe-me levá-lo para casa
ainda é uma criança
é cedo para o delírio sutil.
Seus cabelos lambidos como os de Gullar
um sapato vermelho
vovô meio dada
pendurava um brinco discreto na orelha esquerda
e na outra um vagalume
costurado com uma linha mais fina
que o silêncio.
O caminho era prisioneiro dos meus dedos magros
(frestas cheias de calos e suor).
Uma agonia
um hálito embebido de coisas noturnas,velórios
príncipe dos gatos bebendo nos bares.
Vovô sem barba, olhos pretamente abertos
nariz comprido.
Nossos corações vazios rolavam ladeiras
bebiam seixos no rio
(ontem não vi Bartira e o sapo ao luar).
Naquele tempo ao céu piscava devagarinho
nos velhos sobrados,
e capturávamos borboletas negras outras azuis
pelos postes altas horas
recitando Allen Ginsberg, Rita Lee
sem fadiga, sem dormir dias e dias,
não fazia tanto frio.
(Eu tinha mandado uma carta para Silvana).
Subíamos nos telhados
roubando o sonho que esqueciam pela manhã.
Quando chegasse em casa
ia ter legião estrangeira ou a hora da estrela,
cartilhas de comunismo...
Naquele tempo eu signo de cachorro
outra vez adormecer todo queimado.
Ontem amei Celuta, ai flor!
Cel tem cheiro de terra molhada
e assim caminha levada...
Baratas chovidas pelo chão, I. disse:
você tá sonso, meio crisântemo.
Chove pouquinho. Dragão, Bach,
tenho desenhado bastante.
Som de Caetano, muito (dentro do peito
azulado de araçás). Canto sem parar.
Carinho de vampiro em I. Se eu te queimo...
Outro sonho: tava eu e...
uma pontada de noite ameaçou minha cara,
uma noite de van Gogh
carruagem espelhada cheia de folhas de mármore
como cisco avermelhado no olho
começava a chorar...
Vovô, e vovô sumia, e eu ficava triste
aguentando as rajadas cruas das lamparinas
amarelas, também dançarinas amarelas
batiam palmas de casa em casa
passeavam com argolas nos dentes, ossos doendo.
Com uma tesoura amolada no realejo
recortei um pouco daquela águae banhei a tarântula
feito farinha num peixe teórico.
Vovô sozinho atravessava muros e jardins
muito leve flutuava perdido pela cidade
gritava meu nome, acorde, toque
curto-circuito nas redes tortas e eu chorava
chorava. Seus olhos ainda trincavam-se.

Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Nelson Magalhães Filho. ANJOS SOBRE O RECÔNCAVO 2008, acrílica s/tela, 80X60 cm

não sei se fui sempre corrompido
para ter afeição pelos teus olhos enluarados
pelos teus velhos poemas que falavam de felídeos
que se agasalhavam em flores noturnamente,
flores que eu sempre plasmava na esperança minguante
de ver um anjo triste me acenar com suas mãos pardas,
não sei se fui contagiado para caminhar
pelos ermos jardins
sob um canto lisonjeiro de pequenas aves astutas
que não dormitavam nem com o clamor
das estrelas pretas
perdidas entre nuvens sombrosas,
não sei do trem que corre à noite sempre te levando
para aquele tempo inculto em que eu nunca poderei estar...

Nelson Magalhães Filho

terça-feira, 9 de setembro de 2008

cavalos discorrem pela afável noite
até ficar insuportável beijá-los
- com a língua beijar cavalos -
o tempo não passa nunca
o tempo chora sangue de anjo sangue de cavalo.
ainda não sei o que tem dentro de mim
que não passa nunca e chora
sangue de cavalo sangue de anjo.
eu cambaleava pela afável noite de ontem
com a sede insuportável do beijo
vadiando pelos becos escuros da gamboa
vadiando pelas ruas estreitas
esculpidas de perturbados da gamboa.
aí eu começei o canto esganiçado
para você me ver assim: uma
muralha de dor,
uma carne tecida de flores
que vão ficando álgidas de aves marinhas.
meu amor que não conheço apenas me pasta
neste tempo perdido no mar negro
abortando cavalos e cadelas e rezando pro anjo.
vivo pastando no mar negro como peixe boi
estrela do mar negro percorro temporais selvagens
e cada vez que me perco pela afável noite de ontem
o oco de mim vai vomitando
um sentimento nostálgico de perdas
espelhos de mortos com seus ossos de medo.

Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Nelson Magalhães Filho. PAISAGEM QUE AS CRIANÇAS URBANAS COMERAM 4 - 1995. Mista s/tela, 185X145 cm

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

SAMANTHA ABREU, No final, a Droga

domingo, 27 de julho de 2008

OUTRAS CANÇÕES PARA NOITES FELINAS


Mixwit

domingo, 20 de julho de 2008

Nelson Magalhães Filho. Série ANJOS BALDIOS 2008. Acrílica s/tela, 70X70 cm

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Nelson Magalhães Filho. Série ANJOS SOBRE O RECÔNCAVO 2008. Acrílica s/tela, 100X90 cm

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Nelson Magalhães Filho. Série ANJOS SOBRE O RECÔNCAVO 2008, acrílica s/tela, 80X70 cm

embalsamento de luzes congeladas
sem piedade trazem revelações terríveis onde
devoro cabeça de porco deslumbrado pelos tufões
sobre nossa memória alheada,
onde meus amigos me chamam de canalha
em especulações sombrias sobre um festim instintivo,
mas fico imune quando bebo sangue de porco obsceno
sacaneando com os assassinos.

Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, 3 de julho de 2008

BUKOWSKI



O Bluebird

Charles Bukowski

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo, fica aí dentro, eu não vou
deixar ninguém
te ver.

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu taco uísque nele e respiro
fumaça de cigarro
e as putas e os barmen
e as caixas do mercado
nunca sabem que
ele está
aqui dentro.

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo,
fica na tua, você quer me pôr
em apuros?
você quer sacanear com minha
obra?
detonar com minha venda de livros na
Europa?

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais esperto, só deixo ele sair
de noite às vezes
quando todos estão dormindo.
eu falo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

daí o ponho de volta,
mas ele ainda canta um pouco
aqui dentro, eu não o deixei morrer
totalmente
e a gente dorme junto desse
jeito
com nosso
pacto secreto
e é bem capaz de
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?

(tradução de Fernando Koproski, incluído em Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém (7 letras, 2005).

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Nelson Magalhães Filho. ANJOS BALDIOS 2008, acrílica s/tela, 100X90 cm

quarta-feira, 7 de maio de 2008

DARK ANGELS GALLERY VEJA MAIS:
http://dischargepics.blogspot.com/
cachorro vadio


Nelson Magalhães Filho. Mista s/tela, 80X60 cm


sexta-feira, 2 de maio de 2008

Nelson Magalhães Filho. Mista s/tela (detalhe), 70X50 cm

estou ausente de você outra vez. pássaros agarrados
no luar de teus olhos ermos após
a chuva de avencas, lábios incendiados.
fudido à primeira vista deste luar respingado
pela janela do quarto imundo
subitamente acontece de: lábios incendiados
noites-gerânios desperdiçados.
lua cheia longas noites de embriagues
lua raivosa depois que você outra vez se foi agoniada
uma flor esfolada da mijada dos deuses
você foi embora ontem uma faísca
amarela nos seus olhos longe do tempo.
amanhã o sol negro levará à ruína
todos os invernos tardios,
enterrará as tardes-miragens
que vão se fuder antes que as cinzas
queimem as paredes de meu quarto imundo
pedaços de mim nos fins desta tarde.

Nelson Magalhães Filho

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Bride, de Ray Caeser

Lavínia
cheia de paixões e psilocibina.
Lavínia e as asas
sangrando.
Lavínia me contou que seu passatempo favorito
era se atrever a beijar teiús
e uivar perante a presença do seu cachorro
rabujento,
vestir uma camisola transparente
dormir ao relento
por os olhos nas frestas:
zurrar barbárie
sangrando.

Nelson Magalhães Filho
Série MULHERES. Mista s/papel, 100X80 cm


antes o olor das avencas
e o perfume obsceno entre tuas coxas bonitas
mordo teus lábios carnudos embebidos de vinho,
e atordoado pelos beijos,
zonzo, chupo tua língua, teus tênues olhos em vão
cheios de lágrimas-azeites.
tarde triste prá porra. começa a
chover agora quando fico atordoado,
quando criança gostava de escalpelar
iguanas do mar (sutileza assustadora)
quando criança andava de bicicleta
pela rua das capilárias
e coisas admiráveis acontecem
quando passo por um estorvo de mar:
aí eu pressagio o pernicioso
sonho que rasga tua boca:
durante todo o inverno passeávamos
pelas ruas vadias provocando tormentas
no aroma concebido das avencas...

.
.
.


falarei da ferocidade dos desejos violentos das últimas horas, desmaiadas que traziam fragâncias estranjas do mar da pituba, lembranças de teus olhos despovoados verdes mentiras de teus lábios embebidos de sutil encanto. não há nuvens no céu apenas a lua pálida cheia de silêncios, mastiga a lua pessoas insanas uivando para nada, pois desperdiçei flores demais em seus lábios de mentiras. a música de nick cave tocando no micro system o quarto com cortina de lagartos rasgam o tempo das irascíveis cobiças. a chuva brandamente voltava e fico estonteado de chuva que range na vidraça vermelha amor à primeira tempestade incide sobre minha pele queimada de sol respinga desprezo pela comoção destes amores subterrâneos.


Nelson Magalhães Filho