Realizar trabalhos de arte a base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acredito na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita e ao mesmo tempo infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou para um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro.

Nelson Magalhães Filho

terça-feira, 9 de setembro de 2008

cavalos discorrem pela afável noite
até ficar insuportável beijá-los
- com a língua beijar cavalos -
o tempo não passa nunca
o tempo chora sangue de anjo sangue de cavalo.
ainda não sei o que tem dentro de mim
que não passa nunca e chora
sangue de cavalo sangue de anjo.
eu cambaleava pela afável noite de ontem
com a sede insuportável do beijo
vadiando pelos becos escuros da gamboa
vadiando pelas ruas estreitas
esculpidas de perturbados da gamboa.
aí eu começei o canto esganiçado
para você me ver assim: uma
muralha de dor,
uma carne tecida de flores
que vão ficando álgidas de aves marinhas.
meu amor que não conheço apenas me pasta
neste tempo perdido no mar negro
abortando cavalos e cadelas e rezando pro anjo.
vivo pastando no mar negro como peixe boi
estrela do mar negro percorro temporais selvagens
e cada vez que me perco pela afável noite de ontem
o oco de mim vai vomitando
um sentimento nostálgico de perdas
espelhos de mortos com seus ossos de medo.

Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Nelson Magalhães Filho. PAISAGEM QUE AS CRIANÇAS URBANAS COMERAM 4 - 1995. Mista s/tela, 185X145 cm

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

SAMANTHA ABREU, No final, a Droga

domingo, 27 de julho de 2008

OUTRAS CANÇÕES PARA NOITES FELINAS


Mixwit

domingo, 20 de julho de 2008

Nelson Magalhães Filho. Série ANJOS BALDIOS 2008. Acrílica s/tela, 70X70 cm

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Nelson Magalhães Filho. Série ANJOS SOBRE O RECÔNCAVO 2008. Acrílica s/tela, 100X90 cm

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Nelson Magalhães Filho. Série ANJOS SOBRE O RECÔNCAVO 2008, acrílica s/tela, 80X70 cm

embalsamento de luzes congeladas
sem piedade trazem revelações terríveis onde
devoro cabeça de porco deslumbrado pelos tufões
sobre nossa memória alheada,
onde meus amigos me chamam de canalha
em especulações sombrias sobre um festim instintivo,
mas fico imune quando bebo sangue de porco obsceno
sacaneando com os assassinos.

Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, 3 de julho de 2008

BUKOWSKI



O Bluebird

Charles Bukowski

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo, fica aí dentro, eu não vou
deixar ninguém
te ver.

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu taco uísque nele e respiro
fumaça de cigarro
e as putas e os barmen
e as caixas do mercado
nunca sabem que
ele está
aqui dentro.

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo,
fica na tua, você quer me pôr
em apuros?
você quer sacanear com minha
obra?
detonar com minha venda de livros na
Europa?

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais esperto, só deixo ele sair
de noite às vezes
quando todos estão dormindo.
eu falo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

daí o ponho de volta,
mas ele ainda canta um pouco
aqui dentro, eu não o deixei morrer
totalmente
e a gente dorme junto desse
jeito
com nosso
pacto secreto
e é bem capaz de
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?

(tradução de Fernando Koproski, incluído em Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém (7 letras, 2005).

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Nelson Magalhães Filho. ANJOS BALDIOS 2008, acrílica s/tela, 100X90 cm

quarta-feira, 7 de maio de 2008

DARK ANGELS GALLERY VEJA MAIS:
http://dischargepics.blogspot.com/
cachorro vadio


Nelson Magalhães Filho. Mista s/tela, 80X60 cm


sexta-feira, 2 de maio de 2008

Nelson Magalhães Filho. Mista s/tela (detalhe), 70X50 cm

estou ausente de você outra vez. pássaros agarrados
no luar de teus olhos ermos após
a chuva de avencas, lábios incendiados.
fudido à primeira vista deste luar respingado
pela janela do quarto imundo
subitamente acontece de: lábios incendiados
noites-gerânios desperdiçados.
lua cheia longas noites de embriagues
lua raivosa depois que você outra vez se foi agoniada
uma flor esfolada da mijada dos deuses
você foi embora ontem uma faísca
amarela nos seus olhos longe do tempo.
amanhã o sol negro levará à ruína
todos os invernos tardios,
enterrará as tardes-miragens
que vão se fuder antes que as cinzas
queimem as paredes de meu quarto imundo
pedaços de mim nos fins desta tarde.

Nelson Magalhães Filho

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Bride, de Ray Caeser

Lavínia
cheia de paixões e psilocibina.
Lavínia e as asas
sangrando.
Lavínia me contou que seu passatempo favorito
era se atrever a beijar teiús
e uivar perante a presença do seu cachorro
rabujento,
vestir uma camisola transparente
dormir ao relento
por os olhos nas frestas:
zurrar barbárie
sangrando.

Nelson Magalhães Filho
Série MULHERES. Mista s/papel, 100X80 cm


antes o olor das avencas
e o perfume obsceno entre tuas coxas bonitas
mordo teus lábios carnudos embebidos de vinho,
e atordoado pelos beijos,
zonzo, chupo tua língua, teus tênues olhos em vão
cheios de lágrimas-azeites.
tarde triste prá porra. começa a
chover agora quando fico atordoado,
quando criança gostava de escalpelar
iguanas do mar (sutileza assustadora)
quando criança andava de bicicleta
pela rua das capilárias
e coisas admiráveis acontecem
quando passo por um estorvo de mar:
aí eu pressagio o pernicioso
sonho que rasga tua boca:
durante todo o inverno passeávamos
pelas ruas vadias provocando tormentas
no aroma concebido das avencas...

.
.
.


falarei da ferocidade dos desejos violentos das últimas horas, desmaiadas que traziam fragâncias estranjas do mar da pituba, lembranças de teus olhos despovoados verdes mentiras de teus lábios embebidos de sutil encanto. não há nuvens no céu apenas a lua pálida cheia de silêncios, mastiga a lua pessoas insanas uivando para nada, pois desperdiçei flores demais em seus lábios de mentiras. a música de nick cave tocando no micro system o quarto com cortina de lagartos rasgam o tempo das irascíveis cobiças. a chuva brandamente voltava e fico estonteado de chuva que range na vidraça vermelha amor à primeira tempestade incide sobre minha pele queimada de sol respinga desprezo pela comoção destes amores subterrâneos.


Nelson Magalhães Filho
Andy Warhol and Jean-Michel Basquiat, filmed in 1986


quinta-feira, 3 de abril de 2008

Nelson Magalhães Filho. A MORTE DIANTE DA LUA. Mista s/tela, 140X140 cm.

quinta-feira, 13 de março de 2008

PATTI SMITH, Ask The Angels




Patti Smith vai ter uma série de obras suas em exposição na Fundação Cartier, em Paris, a partir de 28 de março. Land 250, assim se chamará a exposição que incluirá 250 polaroids (entre as quais imagens dos talheres do poeta Rimbaud, a guitarra de Hendrix, os chinelos do fotógrafo Robert Mapplethorpe, a cama da escritora Virginia Woolf, a máquina de escrever do escritor Hermann Hesse ), desenhos, instalações, filmes, canções e objectos. Um destes objetos é uma pedra de rio, tirada do local onde Virgínia Woolf se suicidou. A fundação vai lançar quatro livros dedicados a Patti Smith.

quarta-feira, 12 de março de 2008

LEONARD COHEN

terça-feira, 11 de março de 2008

Nelson Magalhães Filho. Mista s/papelão, 100X80 cm

agora desentregar-me-ia
sufocantemente às damas
das ruas fedidas-devorado
e adoecido pelas velhas luzes
que vão e que voltam, porque-vesânico:
prostituindo-me pouco a pouco
errando-me nas coxas de begônia
jorrando-me nas mães estreitas
esmago
momentaneamante esse desvario.
contra os postes e os automóveis
cintilantes por causa da lua
de monstros-latiam
porque sitar remosa:
alisas meus cabelos
ranges meus ossos
desmelancolizados
através das doutrinas secretas
de tua agudez
pré-histórica.

Nelson Magalhães Filho

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Nelson Magalhães Filho. Mista s/papel, 70X50 cm



AÇOUGUE
Sala branca semelhante a um centro cirúrgico, alguns aparelhos médicos. Há três macas ginecológicas. Um homem com sobretudo branco fala para um casal vestido a rigor. Há um homem e uma mulher deitados nas macas com roupas íntimas e uma auxiliar ajudando-o com o projetor de slides : “ trabalho sempre buscando a perfeição, sou de formação cartesiana e acho que esse é o segredo do meu sucesso. (passa um slide com um plano cartesiano). É verdade que o perfeito para o imperfeito é o imperfeito, se é que vocês me entendem. Vejam essa mulher (slide de uma mulher obesa com os peitos nus e tarja preta no rosto) ela procurou nosso serviço pois desejava que eu abrisse um orifício artificial em sua barriga para satisfazer um amante, pois seus orifícios naturais tinham perdido o gosto, ela me disse. Expliquei que poderia ter problemas de escape de fezes, infecções etc, mas ela insistiu, foi operada e à partir da segunda revisão foi liberada para utilizar o orifício. Teve uma religiosa que pediu para transplantar seu clitóris para a axila, para então poder gozar sem pecar...

Homem vestido a rigor: interessante, mas o senhor recomendou-a algum desodorante especial?

Dr. : não, apenas pedi que semanalmente passasse na axila algum tipo de creme ginecológico.Mulher vestida a rigor: onde foi sua formação Dr., digo, onde concluiu os estudos?

Dr. : estudei na Europa, mas os experimentos começaram em aldeias sudanesas.

Homem: Quando surgiu o interesse pela pornologia?

Dr.: olha, eu aqui quem faço as perguntas...

Mulher: por favor, doutor, responda. Ajudaria-nos a ter mais segurança.

Dr.: A pornologia é uma ciência antiga, há registros de múmias egípcias encontradas com pênis adornados, alongados e até mesmo banhados em ouro.

Homem: interessante.

Dr. : sou de uma família tradicional, não tão rica, mas tradicional e vocês sabem que famílias tradicionais que estão empobrecendo se tornam extremamente pornográficas.

Mulher: sério!?

Dr.: Nas festas de família realizávamos orgias maravilhosas, lembro de quando éramos crianças uma tia-avó besuntava seus seios com brigadeiro que nós lambíamos até nos saciarmos...

Homem: eram seios grandes?

Dr.: (se empolgando) enormes...

Mulher: (quebrando a empolgação) crianças não deveriam comer tanto doce, não faz bem a saúde.

Dr.: Os adultos também transbordavam orgia, nas partidas de pôquer eles apostavam penetrações, parceiros, roçadas.

Homem: já jogamos pôquer apostando posições...

Mulher: (constrangida) mas, isso já faz tempo.

Dr.: ora, ora, então vocês tem afinidade com o tema...

Homem: bem, estamos aqui, não estamos.

Dr.: digamos que querem tratar do que os leigos chamam putaria.

Mulher: pode-se dizer que sim.

Dr.: mas antes de dizerem o que realmente querem, deixe-me apresentar-lhes a equipe: essa é minha secretária e instrumentadora cirúrgica, mas me serve também como inspiração pornológica (levanta a saia da secretária, mostrando cintas-ligas) se é que vocês me entendem. Uma garota muito esforçada. – querida, diga oi para nossos clientes. (a garota responde: oi.). Esse casal são nossos manequins; alguém diria que essas perfeições têm origem suburbana? Treinei-os bastante, foram a congressos, orgias, workshops e até para retiro do Santo Daime que é uma grande capacitação sodomita...

Homem: aquele chá toca o ponto “G” cerebral.

Mulher: que frase horrível!

Dr.: Mês que vem vão ambos para a Europa, ele para um curso de erotização ativa e ela para um curso de erotização passiva. Não é lindo!? Oséas diga oi para nossos clientes. (ele diz: oi.). Carlinha, diga oi para nossos clientes. (ela diz: oi.).

Mulher: são tão educados...

Homem: e gostosos também!

Dr.: bem, mas digam, o que desejam de nós.

Homem: olha doutor, meu caso é simples. O Sr. Sabe que o homem contemporâneo deve se preocupar com o prazer da mulher, que o orgasmo feminino depende disso e foi pensando nela que gostaria que diminuísse a minha curvatura.

Dr.: você que dizer envergadura.

Homem: é. Eu acho ela muito torta.

Dr.: para a direita ou esquerda

Homem: para cima.

Dr.: vocês tem algum tipo de dispareunia?

Mulher: dispa o quê?

Dr.: Dispareunia. significa dor ao coito?

Mulher: absolutamente.

Dr.: deixe-me dar uma olhada...

Homem: (põe naturalmente o pênis para fora) assim não dá para perceber.

Dr.: Carlinha, por favor, me auxilie. (Carla mecanicamente erótica levanta parte do vestido, o homem olha fixamente o decote enquanto o Dr. Examina) Assim está melhor.

Mulher: e aí doutor, é grave. (o dr. continua examinando enquanto o homem olha para a mulher e está quase gozando).

Dr.: (o homem goza na mão do Dr. que a limpa naturalmente com um lenço dado pela secretária). Não, há de fato uma envergadura de aproximadamente 35 graus que podemos reduzir para 10 ou 15.

Homem: que tal 5?

Mulher: que tal 15 graus negativos?

Dr.: reduzir de mais torna o procedimento arriscado e dispersonifica o seu pênis, que tem que ter um pouco das características originais.

Mulher: entendo.

Homem: 15 me parece ótimo!

Mulher: por mim tudo bem.

Dr.: parece que chegamos a um consenso. Podemos começar já, se vocês quiserem.

Mulher: só mais uma coisa...

Dr.: claro. ( o casal se olha).

Homem: ela também quer modificar o corpo.

Dr.: veio ao lugar certo.

Mulher: meu caso é um pouco mais complicado...

Dr. sou todo ouvidos.

Mulher: sempre tive um fascínio grande pelo reino animal, desde a infância, na fazenda dos meus avós, tive uma iniciação sexual muito próxima da natureza, mantive relações com várias espécies animais...

Homem: ela é bióloga.

Dr.: bela profissão, mas, continue...

Mulher: foi então, que trabalhando em uma ONG no litoral observei que as gaivotas tem seu ânus e a vagina unidos em um só orifício...

Homem: chama-se cloaca.

Mulher: então descobri que todas as aves tem cloaca e que os peixes também. Foi quando decidi: eu também quero ter uma cloaca.

Homem: eu a apoiei desde o início.

Mulher: só o senhor pode me ajudar.

Dr.: há alguns anos, no Canadá, fiz um curso de cloacalização e se trata de uma cirurgia um pouco mais complexa. O que você acha disso(pergunta ao homem)?

Homem: enquanto ela não estiver cacarejando para mim está tudo bem.

Mulher: Imagine meu bem, com sua nova envergadura e eu com minha cloaca vamos ter noites intermináveis.

Dr.: Bem, então acho que podemos começar as cirurgias. Damas primeiro.

Pablo Sales*

* Ator, roterista da Companhia dos Anjos Baldios e escritor (Prêmio Braskem de Literatura , 2002).

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Nelson Mgalhães Filho. Mista s/papel craft, 100X80 cm



ainda assim atingiremos
de mãos permitidas ao afável
a aurora estúpida
do mundo corrompido.
ouviremos a grasnada das aves tristes
quando ainda teus olhos de violetas
deitam algumas lágrimas
sobre os lacraus
que me beijam na boca.

Nelson Magalhães Filho

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

cachorro vadio está no discharge 4

Nelson Magalhães Filho. Mista s/papel, 70X50 cm

CLICA AQUI:
http://fishyarts2.blogspot.com/

domingo, 17 de fevereiro de 2008

é foda quando esta noite desparaisa, frívolo o oco,

teus anjos de louça na penteadeira

porcos que se cevaram

medra minha fome teu corpus solus, aninha-se

um medo, em mazelas sou devorado

mijo nesta noite se pressaga: escuto rendez-vous

com Jane Birkin para amar porra nenhuma

sem mais embasbacar teu afago dama dos gatos,

esta noite a insônia embuçada até teus olhos sombrios

eu simplesmente embrenho-me em teu destormento.

Nelson Magalhães Filho

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008


Fotos: Nelson Magalhães Filho
pétalas de rosa no seu rosto
sonos desmanchados como um despejo de estrelas
e teu olhar viscoso sobre o nada desesperado
da paisagem frugal
acenando para miragens-labaredas
titubeante sabor cor de sangue
incendeia meu pau.

Nelson Magalhães Filho

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008